sexta-feira, 5 de julho de 2013

Constelação Germinante

Um andarilho, calvo e barbudo, contou-me que
Quando uma estrela cai é sinal de que uma alma
Subiu aos céus e, logo em seguida, outro astro surge,
Nascendo uma nova criatura na terra, o ser Novae.
Disse-me também que quando contamos estrelas,
Apontando para elas, verrugas surgem em nossas mãos
Caso, por descuido, apontemos para as anãs castanhas,
Almas perdidas daqueles que desafiam a ordem, a moral e
Os bons costumes. Subversivos que atentam contra a sociedade.

Nunca mais avistei o velho viajante
Em suas jornadas de peregrinação.
Provavelmente cansou-se de sua missão
Por ver que o mundo está a mudar
E que dezenas de novas "anãs castanhas" brotam no céu,
Sem disseminar qualquer verruga nas mãos que constroem o mundo.
Mas, por trabalhar e sofrer demasiadamente,
Essas mãos estão infestadas de calos massudos.
Mãos, e pés, e tronco, e corpo de guerreiros
Cujas almas são, na verdade, estrelas gigantes
Da Constelação Germinante.
Somos todos poeiras de estrelas,
Contudo, uns produzem muito mais energia que outros.


Vinni Corrêa
26 de julho de 2007


NGC 1579: A Nebulosa Trífida do Norte

PSR J1740-5340

Parafernálias Dentro de um Umbigo

O golpe que tu deferiste naquela pele rochosa
Provocou o mesmo efeito do ilusionista
Ao cortar sua assistente.

A pele já possui os cortes da seca, arquitetura
Urbanística de microrganismos com o seu
Próprio sistema de trânsito.

Embarcações encalhadas em teu aquário lunar. As
Pessoas te seguem com os olhos fechados. Os canhões
Expelem vírus antagônicos.

Algas cristalizadas ao toque da dama enroscada em
Seus tentáculos. Moluscos piratas saqueiam o sonho
Dourado do Atlântico.

O golpe que tu deferiste naquele vidro gelatinoso
Afagou tua lúgubre alma com o oceano de esperança
Descascada por peixes-espada.


Vinni Corrêa
04 de julho de 2008



Bebem da Fonte Onde Cospem os Ratos

Os ratos cospem
E os homens bebem da fonte

A cusparada de ratos
E os homens engolem aos montes

Leptospirose da humanidade
E eles seguem o reponte

Os ratos roem
E os homens observam ao horizonte

Os ratos cospem
E os homens continuam a beber da fonte


Vinni Corrêa
04 de julho de 2008



Fantasma Latino

A pele escanhoada de um corpo derretido abriu seus pulmões e soprou a fantasia esculpindo-a em vermelho. A espada cravada em seu colo mostrava os caminhos da língua materna, com assobios e tiros de festim. Eis que surgiu a voz por detrás da cortina do berço, tomando conta das veias do solo encharcado de sangue. Cobriu-se o quarto com a neblina dos furos dos quadros, ouvia-se apenas o som de um beijo e de unhas lascando o assoalho. O médico deu o laudo: Paramnésia.


Vinni Corrêa
04 de julho de 2008


Fernando Uchôa - El fantasma de la Injusticia

Olívia

Olívia ia pra escola só pra dançar
Ela não gostava de estudar
Vivia inventando coreografias
Nem se tocava no que aconteceria
Um dia saiu para passear
Na reserva onde iria ensaiar
Caiu em um buraco e o que seria
Todos acharam que morreria

Olívia dançando junto aos pássaros
Ninguém consegue seguir seus passos
Ela dá o seu vôo raso

O céu é o seu novo lar
O palco aonde vai se apresentar
Lá ela tem companhia
Nada mais ela desejaria
Uma nova vida encontrar
Agora não quer mais voltar
Aqui em baixo o que ela teria
Se era lá em cima que ela preferia

Olívia dançando junto aos pássaros
Ninguém consegue seguir seus passos
Ela dá o seu vôo raso


Vinni Corrêa
23 de março de 1999


Vladimir Kush - Fiery Dance

Tudo o que a vista alcança

Ela repousa no frio
E vive em céus vazios
As ondas ficaram ferozes
A cerração está por vir
Música ao fundo
Despertando a sua alma
A magia em seu olhar
O substrato do poder
Privado de senso ou de razão
Um impulso que envolve
Traçar e explicar o sentimento
As fronteiras que nos afastam
Ininterruptas e expansivas
Distinções bem definidas a nos cortar

Barreiras intransponíveis
Inúmeros detalhes distintos
Que escapam a nossa idéia
Que submete a um puro desejo
Somos destinados a esquecer as nossas diferenças
Concepção da natureza e da vida
Escolhas que nos dizem respeito
À imagem que nos ocupa
Transpõe sobretudo um começo
Atribui a ela mesma isolada
Sem que exista a separação entre os opostos
Reabro o seu coração e a deixo refletir
Quebra-se a fragilidade do seu corpo
E retorna a si enfim


Vinni Corrêa
06 de outubro de 1999


René Magritte - Espelho Falso

Sempre Assim Desse Mesmo Modo

Depois de tudo
Depois daquela noite sombria
Fora dos nossos olhares
Por trás da imensa energia
Atravessava contudo o céu
Rasgando-o profundamente
E quando as luzes se apagam
E se acendem repentinamente
As horas passam e você intacta
Traindo a sua própria confiança
Desperdiçando o seu precioso tempo
Dentro de você ainda uma criança

Traçando a sua própria trajetória
Sem olhar para baixo
Um vôo sem asas
Há poeira lá embaixo
Não vejo o que há por trás de você
Mas sei muito bem o que é
Uma menina que não quer crescer
Não quer viver a vida como ela é

Quem é que quer saber?
Quem é que quer fazer?
Quem é que pode dizer?
Quem é que pode ser?
É sempre assim desse mesmo modo


Vinni Corrêa
09 de agosto de 1999


René Magritte - O Império da luz

Sinônimos

Um deslize foi pouco para os erros implícitos
Imensurável é o tamanho do vazio que não se compreende
Inevitável é a dor que em nosso corpo preenche
Mas um eclipse toma conta de tudo que é solícito

É desanimador para aqueles que não vêem mais retorno
Em todo um trabalho feito no sufoco

Mais algum fio pode segurar? O teto ainda não desabou!
As paredes que ainda sustentam vão enfarruscar
Porém ainda não terminou

Não se tem mais lucidez nesse imenso universo
À noite perde-se o sono a trajetória se faz em tombos
Mas sou sempre o verso de um intenso berro
E se estou ébrio e me encontro em escombros
Me deixa férvido quando ando nesse submerso
E fétido lugar onde todos somos sinônimos.


Vinni Corrêa
02 de agosto de 2006


Mário Cesariny - Naniôra – Uma e Duas

A Queda

Meus sonhos negros e meus pesadelos brancos
Vejo toda noite a mulher em prantos
O sabor do meu olhar apresenta-se amargo
Sem expectativas e aparentemente cinza ou pardo
Uma vez que isso não sai da minha cabeça
Nada é capaz de fazer com que algo dela eu esqueça

Uma taça de vinho adormece o meu enlevo
Que dá fim a todo o nosso enredo
Os dias e as noites não possuem brilho
Dou volta nos mesmos trilhos

Um mundo surrava as portas enquanto eu tentava dormir
E eu forçando os erros para que em meus sonhos eu pudesse cair

Finalmente a queda

Há um corda onde eu tento me segurar
Tento subir mas não saio do lugar
Escorrego com as minhas mãos sujas de querosene
Ela risca o fósforo para que eu me despenque
O fogo me consome por completo
A fumaça prenuncia o final concreto

Fico embriagado em estado de transe
Não há como escapar não há nenhuma chance
Relembro meus últimos instantes com ela
Agora a dor merecida pela queda

Um mundo surrava as portas enquanto eu tentava dormir
E eu forçando os erros para que em meus sonhos eu pudesse cair

Finalmente a queda

Me via em cima de um enorme prédio
Recordava o quão bom era o meu tédio
Quando enfim vi que o céu era o chão
Tarde demais para que eu usasse as minhas mãos
E me arragasse nas chances a mim oferecidas
Então ela veio acertar as minhas feridas

Mais uma vez não pude evitar o meu decréscimo
Meu tempo era contado em milésimos
Tendo a perecer dessa maneira
Terminar nada mais do que poeira

Um mundo surrava as portas enquanto eu tentava dormir
E eu forçando os erros para que em meus sonhos eu pudesse cair

Finalmente a queda


Vinni Corrêa
02 de março de 2004

René Magritte - Golconda

Marc Chagall - La caduta di Icaro

Só Outro Dia

Assim olho dentro de mim mesmo
E ainda vejo os dias quando eram somente dias
Segui minha vontade de vencer
Algo na minha frente e tudo na minha vida
Colocarão flores mortas em nossos túmulos
Não temo o dia de amanhã
Mas temo o que virá depois do fim
Se é que existe um fim...
Se é que existe um fim...

As terras desertas por que passei
Não vi nada acontecer
Por muito tempo estive isolado
Provei a dor que nunca mereci ter
Defrontando os caminhos desconhecidos
A cada noite era um pouco pior
Sempre muito mais frio
Sentia-me vazio...
Sentia-me vazio...

Venha amor
Venha aqui
Venha e diga
Hoje é só outro dia

Permita-me ser seu companheiro
Pelas noites vagas que você passará
A lua não é nossa inimiga
Ela a ajudará a me encontrar
O que é correto é o que pode ser dito
Minhas palavras levam a liberdade
Calmo, vejo tudo ao meu redor
Ao meu redor...
Ao meu redor...

Você participa do meu jogo
Ao chamado do coração
Eu resido dentro de você agora
Bem próximo do seu coração
Sua face mostra insegurança
Liberte-se e deixe que flua lentamente
Não posso correr para longe daqui
Longe daqui...
Longe daqui...

Venha amor
Venha aqui
Venha e diga
Hoje é só outro dia


Vinni Corrêa
21 de setembro de 1999


Renè Magritte - O Terapêuta

Cundo Bermúdez - Mujer Multicolor

O Ser

O ser irracional modifica sua própria natureza para adequar-se ao meio ambiente.

O ser racional modifica a natureza alheia para manter a comodidade de não mudar a si próprio.

O ser libertário modifica a si mesmo, para aceitar a natureza do próximo, que está, ela mesma, a modificar e ser modificada, diariamente, pela revolução.


Vinni Corrêa
06 de abril de 2008


Salvador Dali - O Nascimento do Novo Homem

Coisa Vã

A curiosidade infantil em potes de conserva não provoca efusão.
Sob os lençóis nebulosos não ejacula a flor da manhã.
O nácar dos teus olhos não diz verdadeira a tua conflagração.
E fazer o caçador desistir da presa é coisa vã.


Vinni Corrêa
30 de março de 2008


Willem den Broeder - City Charter at a Given Moment

A Olho Nu

Desnudo meus olhos de todo dogmatismo e enxergo,
Por debaixo da blusa, os seios da sociedade onde estão a mamar,
Impiedosamente, políticos mimados.

Desnudo meus olhos de toda ignorância e enxergo,
Nas galáxias mais profundas da vida, o pulsar do encantamento que espalha,
Vigorosamente, a paixão libertária.

Desnudo meus olhos de toda artificialidade e enxergo,
No íntimo do ventre do povo, a naturalidade do embrião da revolta,
Fervorosamente, a confrontar o arcaico.

Desnudo meus olhos de toda propaganda e enxergo,
Pelo avesso da matéria, a beleza caminhando em passos largos,
Livremente, a clamar pela consciência.

Desnudo meus olhos de todo comodismo e enxergo,
No espelho trancafiado no baú das sombras, a chave da represa que, quando aberta,
Indevassavelmente, enche a maré de sonhos.

Desnudo meus olhos de todo egoísmo e enxergo,
Diante da escalada na pirâmide, que o olho que tudo vê,
Irreparavelmente, não enxerga a gordura em sua própria retina.

Desnudo meus olhos de toda selvageria e enxergo,
Nessa floresta mercadológica, que a madeira sustentadora desse ecossistema,
Progressivamente, está a ser devorada por cupins negocistas.


Vinni Corrêa
30 de março de 2008

Cena do filme "O Cão Andaluz" de Buñuel

Cena do filme "O Cão Andaluz" de Buñuel

Cena do filme "O Cão Andaluz" de Buñuel

Orgasmo Multiestelar

As zonas erógenas de teus cabelos se umedecem com o vai e vem do vento libertário a roçar-te a nuca tensa das montanhas. Subo os degraus dourados para te ofertar cafunés e acariciar a ruflante bandeira negra e rubra de teus cachos de uva. Espremo essa fruta que derrama teu líquido vaginal; um orgasmo que cria uma supernova, origina a fusão nuclear – torna maleável a pedra dos sonhos; tapa os buracos da vida com fragrância de loucura; quebra as algemas do dogma com as ondas da perspicácia das correntezas dos olhos puros e do coração companheiro; rema o barco do novo homem em águas cósmicas onde se pesca encantos; apura o sabor da alma com a língua da embriaguez; e gira em torno da órbita do ser irradiando amor ao seu núcleo, até então, vazio.


Vinni Corrêa
13 de março de 2008


Cruzeiro Seixas - Sem Título

Cruzeiro Seixas - Sem Título

Os Acúleos da Burguesia

As rosas possuem espinhos assim como os pobres possuem liberdade.


Vinni Corrêa
15 de março de 2008


Vladimir Kush - Morning Blossum

Linguagem Universal

Teus lábios, doces almofadas onde durmo meu corpo,
Descarta qualquer brilho artificial, pois tua boca
Está cheia de estrelas falando uma língua universal:
A língua da liberdade.
Nesta linguagem meus sonhos cospem o terror da ignorância
E engolem o delírio da coragem.


Vinni Corrêa
13 de Março de 2008

Joan Miró - Nocturne

Caldeira do Mundo

Devemos remexer a caldeira do mundo
Para ativarmos os vulcões das almas,
Despencadas no abismo do silêncio acomodado,
E bombear as mais puras aspirações pelos rios de lava
E, então, expelir pela garganta a coragem flamejante,
Anunciando o canto do galo e penetrando
Nas raízes do sentimento humano até arrefecer,
Quando cristalizar-se-á, formando uma estrutura maciça,
Onde, em seu interior, permanecerá o magma da vida,
Pronto para ser reativado quando novamente tiver que se libertar.

Vinni Corrêa
04 de fevereiro de 2008

Diego Velasquez - The Forge of Vulcan

Ser Fascinante

Diz-se que o ser humano fascina-se pelo o que é proibido.
Há de proibir o amor para que fascine os homens?

Alguns querem legalizar o que é proibido.
E perder o fascínio?

Não consigo compreender esse ser fascinante.
Mas quem há de compreender
Se o próprio indivíduo não compreende a si mesmo.

Vinni Corrêa
02 de fevereiro de 2008

Jeffrey Michael Harp - The Victorian Surrealism

Primeiro Aniversário

Quero te pedir mais uma vez um sorriso,
E junto de ti também quero sorrir.
Porque ao seu lado eu sou o homem mais feliz,
E assim permanecerei enquanto
Nossas vidas fizerem parte da mesma história.
Um simples sorriso não se encontra
No rosto da pessoa pronta
Mas, é fácil encontrar no rosto de uma verdadeira mulher.
Uma mulher cercada de vigorosos desejos,
Encantos e paixões, a mulher que você é.
Hoje é o nosso primeiro aniversário.
Mas o meu amor por você faz bodas.
Um amor sincero, um amor puro.
Porém maduro.
Hoje celebramos um ano do nosso amor.
É na verdade o primeiro de muitos que virão,
No entanto, prefiro dizer que o meu sentimento
É eterno, mesmo que o tempo conduza
A minha carne ao fenecimento.
Quero que saiba: o meu amor é para sempre,
Não comemorarei um último aniversário.
Todos serão como este, serão como o primeiro aniversário.
“Eu te adoro em tudo, tudo, tudo.”

Vinni Corrêa
16 de outubro de 2005


Marc Chagall - Brautpaar mit Eiffelturm

Marc Chagall - Gli Amanti Azzurri

Mar Sem Terra

À praia, o mar ocupava o seu lugar.
Mais tarde veio o homem dele tirar
A terra, onde havia mar, agora aterrado.

Com nossas construções invadimos o espaço do mar,
Retirante das praias, expulso pelo homem, sem lar,
Recluso à periferia do planeta, oceano marginalizado.

De volta, vítima das injustiças, suas terras veio ocupar.
Violento com seus maremotos e tsunames, resistir e lutar,
Vinga-se a mãe natureza, num conflito marcado
Pela luta em torno da Terra.

Vinni Corrêa
27 de março de 2007

Cândido Portinari - Família de retirantes

Nudo Mudo

Houve um tempo em que refugiar-se
Era um ato de sobrevivência e coragem
Mas se o rosto estava à sombra
A luta pela liberdade estava às claras
Hoje a repressão também existe, ainda que de forma diferente
Mesmo com camuflagem
O refúgio é o ato da covardia
Ao inimigo tememos trancafiados em nossas casas

Mudo
Mudo andança
E mundo dança

Nudo
Nudo ação
E numa danação

Vinni Corrêa
26 de novembro de 2006

Angel Ortiz - Homem Mudo

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Não Troque o Certo Pelo Duvidoso

Com telhados de zinco
São os barracos de palafitas ou tapume
Na beira da vala
Apenas a terra batida como piso
Um fogão velho na copa
E colchões furados na sala

Entre os barrancos a enxurrada
Arrasando as madeirites pela frente
E os sonhos de um povo sofredor

Amontoando-se pelas vielas
Acochando-se em fileiras
Seguem os pobres pela favela
No lixão os detritos, os entulhos moídos
Da sociedade desmoronada
Nos reerguemos aflitos, somos nós os excluídos

Quando se arruma confusão
Não se arma barraco, arma mansão
Quando está para entrar numa “fight”
Não é nega que desce o morro, é do elevador que surge a “socialite”
Quem suja as ruas como um porquinho
Não é favelado, é riquinho
Quando se enfia os pés pelas mãos
Não é Paraíba, é patrão

Não troque o certo pelo duvidoso
O pobre trabalha, o rico é ocioso


Vinni Corrêa
25 de novembro de 2006

Candido Portinari - Favela Com Músicos

Tarsila do Amaral - Favela

Basta!

Basta imaginarmos a felicidade
Para que, em um segundo, ela surja
Basta imaginarmos o amor
Para que, do nosso coração, ele não fuja
Basta ter uma coroa para ser rei
Uma aliança para ser noiva e uma caneta
Para assinar lei
Basta ter o prato para saciar a fome
Ser linda como as loiras e possuir carro do ano
Para ter um nome
Basta!

Basta de falsidade, basta, basta!
Basta de viver um mundo que o mundo é
Mas não quer ser

Basta imaginarmos a paz
Para que, como uma pomba, voe livre
Basta imaginarmos o amor
Para que, em nosso coração, ele fique
Basta ter uma cruz para deixar de ser pecador
Câmeras para ter liberdade e dinheiro
Para ter o verdadeiro amor
Basta!

Basta de falsidade, basta, basta!
Basta de viver um mundo que o mundo é
Mas não quer ser


Vinni Corrêa
24 de novembro de 2006


Poder Paralelo

Entre os grilhões desse sistema de consumo
E as abarrotadas penitenciárias de narcotraficantes,
a violência e a miséria,
Há muito mais pontos em comum
Do que qualquer reta que traçarmos neste plano minguante
As Leis constituídas legalmente
São Ilegalmente forjadas
Por membros do poder político e econômico em suas alçadas
Em conjunto com suas ações fora do corpo eminente
Não são poderes concorrentes
Mas um é do outro a sua fachada
E em cada ponto de cada reta formam-se as ninhadas
Que neste plano se cruzam incessantemente
E ainda chamam-no de poder paralelo
Porém é o elo de um verdadeiro círculo vicioso



Vinni Corrêa
30 de julho de 2006

George Grosz - Os Pilares da Sociedade

Losangos e Quadrados

Dia desses fiquei entediado
Não havia nada de diferente que eu pudesse fazer
Na TV, nada de interessante havia para assistir
Até que lembrei-me que fazia tempo
Que eu não encostava-me na varanda
Para apreciar a paisagem
Outrora eu via a imagem como um todo
E, ainda que houvesse prédios
Conseguia ainda admirar as montanhas por trás deles
Mas quando cheguei até a varanda
Centenas de losangos da rede de proteção
Não me permitiam ver toda a paisagem
Mas apenas cada pedaço dela
Parecia um quebra-cabeça recém montado
Olhei então para cada losango de uma vez
E o todo agora era apresentado com suas particularidades
Num eu via uma doméstica estendendo a roupa no varal
Noutro um casal trepando na sala
Em mais um, um rapaz fazendo musculação
E ainda em outro, duas amigas se maquiando
Voltei para o losango do casal, mas
eles já se encontravam em outra posição em outro losango
Nas ruas os carros trocavam de losango com rapidez
A doméstica agora estava no losango das prateleiras do quarto
Parecia que eram os losangos que se moviam
Em vez das pessoas
Mas percebi que havia um sem ação alguma
Um senhor sentado na poltrona da sala
Assistindo o quadrado da TV
Pois dava para ver a luz da tela mudando
Sobre o seu corpo troncudo, e era a única coisa que mudava
E ali permaneceu o dia inteiro
Comecei a pensar na possibilidade de estar morto
Mas ele se levantou e, ainda no mesmo losango
Trocou o canal e sentou-se novamente
Foi então que eu percebi que losangos são melhores que quadrados


Vinni Corrêa
01 de agosto de 2006

Vista da varanda de onde moro com a presença do Bill

Vista da janela de onde moro com a presença da Mel

Vista da varanda de onde moro com a presença do Pôr do Sol

Fila do Desemprego

Certo dia estava eu em busca
De trabalho numa fila para preencher
Uma vaga dentre dezenas de candidatos
De repente, alguém cutuca-me o ombro
E pergunta: - essa é a fila de emprego?
Olhei e respondi: - não, é a fila do desemprego
A pessoa não entendeu e voltou-me
Com outra pergunta: - como assim "do desemprego"?
Voltei meu olhar para ela e num
Breve sorriso, respondi: - se há apenas uma vaga
Para ser disputada entre todos esses candidatos
Fila de emprego não pode ser chamada
Uma fila onde quase todos continuarão desempregados


Vinni Corrêa
01 de agosto de 2006

Durar Bacri - Workers Waiting For a Job

Quem Nunca Roubou?

Quem nunca roubou?
Jogue a primeira pedra aquele que
Nunca roubou
Mas basta o fato de pegar a pedra
Para expressar um roubo

Quem lhe deu permissão para pegá-la
Apropriar-se dela e fazer o que bem quiser?
E a quem quiser?

E se você a guardasse consigo e
Impusesse que ela é a coisa mais valiosa
Que existe nesse mundo e, então, trocasse
Por todas as outras coisas, porque assim
Você quis e decidiu?

E se resolvesse, então, cercar para ti
Um extenso vale de pedras para que vendesse
Àqueles que também quisessem jogá-las?

E aquele que quis jogar a pedra porém
Não pode porque alguém já havia se apoderado dela
E por não ter como comprar um simples pedaço de pedra
Pulou a cerca para, dentre toda aquela pedraria, apanhar
Um pedregulho donde pudesse também
Jogar um pedaço e vender o resto
Mas, com certeza, o chamaria de ladrão
Por ter roubado sua pedra
Aquela pedra que deveria ter sido, desde
O início, dividida entre todos
Porque a ninguém foi deixado
Um testamento sobre a posse dos bens naturais
Cabendo a nós agirmos como irmãos
Distribuindo a todos um pedaço de pedra


Vinni Corrêa
01 de agosto de 2006

O Dia que o Rico fez Caridade

Não apenas comemos. Comemos
E repetimos e enchemos a nossa pança
Com saborosas iguarias
Há ainda aquele que, mais que eu, come
E gasta absurdos para instante depois
Defecar um bolo amarronzado - mole ou consistente

Comemos por puro prazer, capricho
Pois alimentar-se já não é mais
Uma necessidade, é garantia

Mas descobri pratos exóticos que
Nenhum rico jamais ousou experimentar
O miserável, porque saboreamos e estravasamos
Em nossas refeições, precisa inventar sua comida
A sopa de papelão ou a sopa de cactos (que já vem com água)
Já são o cardápio principal nas panelas do pobre
Ora, o rico já levou o samba do pobre para
suas rádios; já levou o futebol do pobre para
seus campos; já levou a mulher do pobre para
suas camas, mas por que não levou a sopa do pobre para
sua mesa?

Comida de rico não é para alimentar é para enfeitar
Comida de pobre não é para alimentar é para estufar
E anestesiar as dores intestinais porque
A dor do desalento se cura com cachaça
Mas os ricos farão caridade: todos os dias
Comerão sopa de papelão e apenas uma vez por ano
Mudarão o seu menu e, em compensação, ofertarão
suas casas, seus iates, suas BMWs
suas roupas, suas terras e suas mulheres
A todos os pobres e miseráveis

Você realmente acredita nessa maluquice?


Vinni Corrêa
01 de agosto de 2006

O Mar Ilha

Para o mar, Omar ia, Maria,
Levar oferendas a Iemanjá
Mas Omar não podia, Maria
Provar o manjar de um marajá
E onde Osmar, Amaro, e tantos outros que te amaram, Maria
Para Omar areia não mais há

Até para Roma Omar tinha ido, Maria
Queria ser teu marido, mas teu amor para o mar ia embora já
Após a romaria te faria o pedido, Maria
Mas tua amargura encobrira também as terras de lá
Então tu resolveste amar gurias, Maria
E agora para Omar não importa onde tu vais
Pois no seu imenso mar Omar encontrou uma ilha, Maria
Ó Marilha!


Vinni Corrêa
31 de julho de 2006

Giorgio De Chirico - O Retorno de Ulysses

TMF

A Transformação é o Momento em que
abrimos a Fechadura do homem,
Talhamos a nossa Mente para uma
nova Fase.
E o Tempo se faz importante na Maturação
que se pretende Formar.
nessa Transição alcançamos um Movimento
de união dos Fragmentos do ser.
com uma certa Tensão, da Metamorfose Fecundarão...

Todas as
Mentes
Férteis.


Vinni Corrêa
4 de outubro de 2005


Diego Rivera - Germinación - fresco del ciclo: Canto a la tierra

Diego Rivera - Maduración - fresco del ciclo: Canto a la tierra