quarta-feira, 29 de julho de 2015

Sexo anal faz mal ao coração?

"é a prática do sexo anal que provoca a endocardite bacteriana”
“por isso, todos os pacientes homossexuais têm endocardite bacteriana”



Essas são afirmações de uma médica em uma palestra que pode ser conferida no seguinte vídeo:


A especialista ignora que não há registro de estudos científicos que apontem a relação direta entre a endocardite e o sexo, inclusive, o anal. Procure por qualquer artigo científico sobre endocardite bacteriana e tente localizar por algum tipo de ligação da doença com a prática de dar o rabo. Não encontrará. É claro que a falta de higienização na região anal pode concentrar, sim, inúmeras bactérias e causar doenças como a endocardite bacteriana, que ataca o coração. Não apenas na pessoa passiva, mas, também, na ativa. Mas a higienização e o sexo seguro com camisinha evitariam tal risco.

Lembrando, ainda, que a higienização não deve ser feita apenas no cu. A região com maior índice de entrada da bactéria causadora da endocardite bacteriana é a oral. Então, deve-se ter cuidado também com o sexo oral (lavar bem a piroca, mas, também, a boca). A doença pode ser contraída em procedimentos de extração de dentes, retirada de cáries, presença de doenças como a gengivite, implantes de piercing etc.

Outro dado importante, a frequência de endocardite não é agravada pela infecção do HIV, assim como sua incidência é igual em pacientes de outros grupos de risco. E, diferente do que afirma a doutora do vídeo, a endocardite bacteriana pode ser transmitida, inclusive, no sexo tradicional, ou seja, da pica para a buceta e vice-versa.



Interessante é que a opinião da médica é a mesma do grande ignóbil pensador brasileiro Olavo de Carvalho.


“ a mulher não sente absolutamente nada [prazer] com a prática do sexo anal, a não ser o sofrimento físico, a dor”

Que essa médica diga isso por ela. Provavelmente ela sofreu algum trauma na vida dela. Ou a primeira vez dela no rabo foi dolorosa ou ela foi violentada. Isso devemos respeitar. Mas, não é por isso que se deve afirmar que NENHUMA mulher sente prazer na região. Há, sim, muitas que sentem prazer com a penetração no cu. O grande problema é que a maioria sente dor na região, pois, além de não ser naturalmente lubrificada (nada que cuspe, manteiga, gel lubrificante ou, como diria Bela Gil, baba de quiabo não possam resolver), é uma área muito apertada na mulher, devido a anatomia da sua bacia. Mas muitos toques de carinhos e alguns beijos podem resolver.





“sem lubrificantes artificiais [e os naturais?], sem anestésicos para limitar a dor, é uma prática dolorosa, humilhante, violadora”

Dolorosa, tudo bem. De fato, as mulheres acham isso. O rompimento do hímen também o é para muitas mulheres. O sexo anal não significa falta de carinho. Ou, ao menos, não deveria significar.

Humilhante? Violadora? Se uma mulher for forçada a tal prática, sem dúvida, é. Aliás, ninguém deve ser forçado a nada que não queira fazer. Isso sim é violação. Provavelmente ela nunca recebeu uma lambida no períneo ou na entrada do cu.



“sendo que ela tem um órgão próprio para isso. Por que o homem teria de submetê-la a esse tipo de atividade se não fosse por sadismo?”

Submeter uma mulher a uma prática sexual que ela não deseja é, certamente, sadismo e, mais que isso, violência, estupro. Mas isso vale para qualquer outra prática sexual além do sexo anal. E por que, diabos, o sexo anal deveria ser algo violento?

Ainda segundo ela, a próstata pode até dar prazer no sexo anal, mas se feito com tamanha violência.

“Sexo anal pressupõe o câncer de próstata”

Também não há evidência científica que determine a relação entre a prática de ser enrabado com o câncer de próstata. Quem gosta de liberar a rosca, pode fazê-lo tranquilamente, sem peso na consciência quanto ao câncer.

Então, é verdade que o sexo anal faz mal ao coração?

Como já escrevi em um poema:

quando o coração sofre mais que o cu é sinal de que o amor não foi lubrificado o suficiente

;)

domingo, 12 de julho de 2015

tem culpa eu?




tem culpa eu?

cu é cego, não tem culpa.
não tem deuses, não tem templo.
não tem razão, não tem culpa.
mas quem dá o seu de exemplo?

#LiteraturadeBordel

sexo inseguro



sexo inseguro

em cu d'homi não vai dedo,
e nem língua de mulé.
cabra macho tem é medo
de gostar de dar a ré.

#LiteraturadeBordel

paixão de rapidinha



paixão de rapidinha

no puteiro apaixonei-me
por alguma meretriz.
e ainda que eu teime,
só durou um mero triz.

#LiteraturadeBordel

licitação licenciosa




licitação licenciosa

ela pôs a virgindade
para venda no leilão.
as pregas, com pouca idade,
já anunciava pregão.

#LiteraturadeBordel

eguona pocotó



eguona pocotó

a chamam moça potranca,
novinha de bunda grande.
mas só a madura anca
guenta cavaluda glande.

#LiteraturadeBordel

karma sutra



karma sutra

uma estranha sensação
de que já vi este cu.
ou de outra encarnação,
ou é mero deja vu.

#LiteraturadeBordel

colar de pervas / violeta




colar de perva

a puta senta no colo,
logo endureço meu pau.
e mal gozo a porra colo,
no colo da gorja anal.


violeta

no letreiro do bordel
pisca nome em luz neon.
escrevi-o num papel
cor lilás do seu batom.

#LiteraturadeBordel

à deus, a carne



à deus, a carne
no carnaval carioca
não fica sequer a alma.
bacanal, carnal evoca,
no bloco vai-com-as-nalgas.

#LiteraturadeBordel

Capa do Literatura de Bordel

Capa aberta do livro Literatura de Bordel


sexta-feira, 10 de julho de 2015

A vida é um roubo para a propriedade

 Vale milhões de vezes mais a vida de um único ser humano do que todas as propriedades do homem mais rico da terraChe Guevara



O brasileiro é um ser muito controverso. Critica a legislação brasileira por ela valorizar mais a propriedade do que a vida humana. No código penal, por exemplo, uma pessoa pode ser condenada a mais tempo de cadeia por roubo do que por atentado a vida de outro indivíduo.
Mas, quando essas mesmas pessoas que criticam esse funcionamento da lei resolvem fazer justiça com as próprias mãos, elas esquecem o que elas defendiam. Vi muitos concordando com a ação de amarrar um suspeito de roubo e furto (sim, suspeito, pois somente a Justiça tem capacidade de condenar alguém) a um poste e depois espancá-lo. Tudo isso por roubo e furto.
Hoje, ao atravessar uma rua com o sinal aberto para os pedestres, um motorista, usando o celular, avançou o sinal e quase atropelou duas pessoas. Penso, se ele tivesse atropelado, acho pouco provável que alguém concordaria em amarrá-lo no poste e espancá-lo.

Porque não apenas na lei, mas, também, na cultura do brasileiro, a propriedade vale mais que a vida.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Literatura erótica na Flip...e fora dela

Literatura erótica na Flip...e fora dela

A Flip 2015 trouxe uma mesa de debates sobre literatura erótica. Um dos assuntos foi o lançamento da nova antologia de poesia erótica da professora Eliane Robert de Moraes.

Contudo, a obra não trouxe grandes novidades em relação à outras já existentes no tema, ainda que alguns autores tenham sido incluídos, como Arnaldo Antunes.

A questão é que a poesia erótica sempre esteva à margem da alta literatura. Portanto, boa parte da sua produção também encontra-se marginalizada, ganhando espaço apenas no submundo, em folhetos, saraus ou, em menor instância, em livros independentes. Sendo assim, muitos autores ficaram de fora da nova antologia.

Um deles é Vinni Corrêa, que, apesar de escrever poemas desde 1999, publicou seu primeiro livro em 2012. Intitulado Coma de 4, uma obra de poesia pornográfica, o livro foi lançado durante a Erotika Fair 2012, a feira erótica de São Paulo. O autor também criou, no Rio de Janeiro, a Fresta Literária - sarrau de poesia erótica, no mesmo ano, e o evento já foi tema do programa Penetra, do canal Sexy Hot, e de um programa televisivo transmitido na Europa. Agora, em julho de 2015, lança seu segundo livro de pornopoesia, o Literatura de Bordel, que, nas palavras do escritor, "é composto por trovas pornôs com muitos toques proctológicos de humor. Quando não, também é. Esse Bordel (ou Beréu) é sua casa. Entre sem bater, deixe isso para quando acabar a leitura".

Literatura de Bordel está disponível em impresso e em Ebook na loja virtual da Editora Perse.


quinta-feira, 2 de julho de 2015

A prisão da consciência ou a maioridade da sociedade

Não quero, aqui, debater se um jovem de 14 anos tem ou não capacidade de compreensão dos seus atos. Isso é muito relativo. A maturidade de consciência não chega para certas pessoas nem aos 40 anos de idade. Enquanto outras possuem maior discernimento já aos 10 anos. A questão a ser encarda não é se esses jovens já possuem consciência dos seus atos, mas o que o sistema prisional brasileiro é capaz de fazer para reabilitá-los e reduzir a violência.

Creio que todo crime deve ter punição para seu feitor. Contudo, há a necessidade de se estabelecer um padrão de idade mínima penal adulta, que no Brasil é de 18 anos. Casos de exceção devem ser tratados como tal, mas nunca generalizados.

Maioridade Penal Vs Idade de Responsabilidade Penal Juvenil

De um total de 57 países, segundo o levantamento Crime Trends (Tendências do Crime)1, da ONU, apenas uma minoria adota idades inferiores a 18 anos como adulto (Bermudas, Chipre, Estados Unidos, Grécia, Haiti, Índia, Inglaterra, Marrocos, Nicarágua e São Vicente e Granadas), sendo que boa parte dessas nações não asseguram direitos básicos da cidadania aos jovens.

Mais interessante ainda, o estudo da ONU mostra que o Uruguai pratica a idade de 18 anos como limite de maioridade penal, pais este aclamado pelos ditos “liberais”, especialmente quando houve a liberação do uso da maconha.

Mas não devemos confundir maioridade penal com idade de responsabilidade penal juvenil.

Maioridade penal diz respeito à idade mínima para tratar um jovem como adulto em julgamentos sobre crimes efetuados por este indivíduo. Diferente da idade de responsabilidade penal juvenil, em que o jovem não é tratado como adulto, mas é responsabilizado por seus atos infracionais.

Quando olhamos para este quadro e o analisamos, a realidade é bem diferente do que as pessoas andam falando. Na maioria dos países, a idade de responsabilidade penal juvenil é de 14 anos. E no Brasil? Essa idade é de 12 anos2.

Em três décadas, pudemos acompanhar a mudança na legislação de alguns países no que se refere à responsabilidade penal juvenil, tal como a Argentina, em 1983, que elevou a idade de 14 para 16 anos. A Noruega, que em 1987, elevou de 14 para 15 anos. E também a Espanha, aumentando de 12 para 14 anos, no ano de 2001.

A Escócia, país que tem um padrão baixo de idade mínima para punição de jovens infratores, tem a idade de responsabilidade penal juvenil entre 8 e 16 anos – cabe aqui esclarecermos as informações equivocadas sobre a maioridade penal na Escócia, divulgado como 12 anos, a partir de 2010 (antes seria 8 anos). Na verdade, a maioridade penal na Escócia é a partir dos 16 anos, sendo que os jovens até 21 anos podem continuar cumprindo suas penas como menores, como no sistema alemão. No entanto, o que acontece na Escócia é que uma criança de 12 anos, dependendo da gravidade do seu crime, pode ser processada na corte comum3. Mas o tribunal não pode impor prisão aos jovens de 12 a 15 anos de idade. Estes ficarão em alojamentos seguros. Já os condenados entre 16 e 21 anos de idade, permanecem em uma instituição para jovens infratores, ou temporariamente detido em uma prisão de adulto caso esta instituição não possua vaga disponível.

Já a maioridade penal, o padrão é de 18 anos na maior parte dos países.

Mesmo os Estados Unidos, que possui um limite menor para a maioridade penal, há distinções de regras de estado para estado, onde alguns mantém o jovem de 18 a 21 anos cumprindo integralmente sua pena como menor.

Reforma no sistema prisional

Recente pesquisa intitulada Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (InfoPen)4, do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), demonstrou que o Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo. Para confirmar o grande problema do sistema prisional brasileiro e de muitos outros países, um outro levantamento aponta que o índice de reincidência (pessoas que depois de libertadas voltam a praticar crime) no Brasil é extremamente elevado: 70% (de cada 7 criminosos, 10 retornam ao crime). A taxa de reincidentes também é elevada em países como Estados Unidos (60%) e Inglaterra (50%). Em um movimento divergente está a Noruega. Com um modelo diferente de sistema prisional, o país nórdico é capaz de reabilitar 80% dos seus presos5.

Para discutirmos se é válida ou não a redução da maioridade penal – o que não eficaz no momento – devemos discutir e propor mudanças no sistema prisional brasileiro. Enquanto tivermos carceragem em vez de estabelecimentos de recuperação, com programas educacionais, obrigação de realização de tarefas de trabalho, estímulo ao lúdico e ao conhecimento cultural, os índices de violência aumentarão e nós vamos querer reduzir cada vez mais a maioridade penal.

E se perguntarmos aos defensores da redução da maioridade penal se eles aceitariam que suas filhas de 14 anos de idade perdessem sua virgindade, afirmando que elas possuem idade para ter consciência dos seus atos, o que eles responderiam?

Do que adianta um jovem ter consciência sobre seus atos se a sociedade não tem consciência dos erros que ela comete contra si mesma, criando sistemas que em vez de trazer benefícios e melhorar os indivíduos infratores, os tornam ainda mais criminosos? Do que adianta reduzirmos a idade em que tratamos jovens como adultos se possuímos um sistema judiciário que prende pobre mas mantém livre o bandido rico?

Referências Bibliográficas